Tuesday, September 1, 2026

A Contingência da Liberdade: Um Panegírico Gouldiano a George Washington

Em biologia evolutiva, somos frequentemente assombrados pela tirania da inevitabilidade retroativa. Quando olhamos para trás, para o registo fóssil, tendemos a interpretar a sobrevivência de certas linhagens como um destino morfologicamente traçado, ignorando o papel monumental do acaso e os desvios caprichosos da evolução. Se pudéssemos rebobinar a "fita da vida" e deixá-la correr novamente, o mais provável seria obtermos um conjunto de criaturas inteiramente diferente daquele que hoje povoa o nosso planeta.

O mesmo princípio de contingência radical aplica-se, com igual força moral, à história das sociedades humanas. Tendemos a encarar a sobrevivência e a estabilidade da república constitucional como um resultado adaptativo óbvio e linear. Mas no final do século XVIII, a fita da história encontrava-se numa encruzilhada morfológica perigosa. A atração gravitacional do autoritarismo monárquico era a norma ecológica mundial. Ao longo dos milénios, quase todos os grandes comandantes revolucionários e líderes militares vitoriosos — de Júlio César e Oliver Cromwell a Napoleão Bonaparte — sucumbiram à mesma força homóloga: conquistaram o poder em nome da libertação e retiveram-no até à morte ou à ruína.
A fita da história americana tomou um rumo radicalmente anómalo devido à arquitetura comportamental de um único homem: George Washington.
A verdadeira grandeza de Washington não residiu na seleção natural de uma ambição predatória, mas sim num virtuosismo extraordinário de auto-restrição. Pensemos no momento fulcral de 23 de dezembro de 1783, em Annapolis, Maryland. Washington encontrava-se no ápice da adoração popular, à frente de um exército vitorioso que acabara de subjugar o império mais poderoso do globo. Ele detinha nas mãos o poder absoluto; poderia facilmente ter dispersado um Congresso politicamente frágil e obtido para si riquezas e coroas. No entanto, num ato que o artista John Trumbull descreveu como "uma das maiores lições morais alguma vez dadas ao mundo", Washington despiu a autoridade do seu cargo, entregou a sua comissão militar ao Congresso e proferiu as palavras que redefiniram o precedente democrático: “Tendo agora terminado o trabalho que me foi atribuído, retiro-me do grande teatro da ação…”.
O próprio Rei George III, um monarca habituado à dinâmica imperial europeia, reagiu com profunda descrença à possibilidade de um líder abdicar voluntariamente do comando. O rei declarou que, se Washington realmente fizesse aquilo e regressasse à sua quinta, seria “o maior homem do mundo” e “o maior caráter da época”. Como o antigo patriota romano Lucius Quinctius Cincinnatus, Washington trocou a espada pelo arado, retirando-se para o seu retiro em Mount Vernon para se dedicar à agricultura científica — uma paixão tão profunda que as suas correspondências sobre a gestão agrícola superavam em extensão as suas diretivas governamentais.
Mas a fita da história voltaria a testar esta morfologia republicana nascente. Em 1789, ao assumir a presidência da jovem nação, Washington deparou-se com uma poderosa pressão direcionada para o fausto régio, revelando o quão difícil era para a mentalidade da época romper com a inércia do pensamento monárquico. O vice-presidente John Adams e o Senado, seduzidos pelo brilho das cortes europeias, consumiram semanas num debate sobre títulos extravagantes. Adams temia genuinamente que, sem a dignidade de um título majestoso, o presidente fosse subjugado pelas elites estaduais ou considerado um "zé-ninguém" pelos reis e príncipes estrangeiros.
É neste ponto que a paleontologia política nos revela os fósseis conceituais da altura. Para compreendermos quão avançado Washington estava em relação ao seu tempo, basta examinar a impressionante lista de títulos formalmente propostos e debatidos no Congresso e na imprensa em 1789:
  • "His Majesty the President" (Sua Majestade o Presidente).
  • "His Elective Majesty" (Sua Majestade Eleita).
  • "His Highness" (Sua Alteza).
  • "His Elective Highness" (Sua Alteza Eleitoral).
  • "His Excellency" (Sua Excelência) — que, ironicamente, era considerado humilde e inadequado por Adams.
  • "His High Mightiness" (Sua Alta Poderosidade).
  • "His Highness the President of the United States of America, and Protector of their Liberties" (Sua Alteza o Presidente dos Estados Unidos da América e Protetor das suas Liberdades).
  • "His Highness, the President of the United States of America, and Protector of the Rights of the Same" (Sua Alteza, o Presidente dos Estados Unidos da América, e Protetor dos Direitos do Mesmo) — a fórmula pomposa que foi formalmente apoiada por John Adams e aprovada por quase todo o Senado.
Enquanto os seus contemporâneos se debatiam na lama da vaidade dinástica, Washington ergueu-se como uma barreira mutacional contra a regressão monárquica. Ele rejeitou com repulsa toda a bajulação monárquica e insistiu na máxima modéstia constitucional. Apoiando o sentimento mais simples da Câmara dos Representantes, Washington aceitou apenas a nomenclatura mais desprovida de ego: "Mr. President" (Senhor Presidente). Com esta simplicidade obstinada, ele manteve o "espectro da monarquia" bem afastado da nova instituição.
Washington compreendeu que o caráter de uma república se molda através de pequenos hábitos repetidos — aquilo a que os gregos antigos, na tradição aristotélica, chamavam de ética. Ele não combateu um rei em Londres para se tornar um rei em Nova Iorque. Pelo contrário, usou a sua influência para sedimentar uma cultura de tolerância e modéstia. Foi este o homem que assegurou à congregação judaica de Newport que a nova ordem americana não daria "qualquer sanção à intolerância, nem assistência à perseguição".
O selo definitivo desta admirável adaptação política ocorreu quando, confrontado com a ausência de limites constitucionais para o mandato presidencial, Washington recusou candidatar-se a um terceiro mandato em 1796. Ele estava convicto de que era vital estabelecer "um exemplo inicial de rotação" pacífica do poder, impedindo que o cargo presidencial se transformasse, pela via da perpetuidade, numa monarquia eletiva disfarçada. Ele recusou fundar uma dinastia.
Numa perspetiva gouldiana, Washington foi o arquiteto de uma nova morfologia política. Numa época em que o "desenho padrão" de um governante exigia coroas, cetros e títulos como "Sua Alta Poderosidade", ele provou a um mundo incrédulo que um governo republicano pode ser forte sem ser opressivo, e que a verdadeira evolução do poder reside na coragem de o devolver ao povo. Ele imortalizou-se não pelo que exigiu ser, mas pelo orgulho e modéstia com que declarou que o seu serviço estava cumprido

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