Monday, May 15, 2006

Conto

-"Hó Afonso!" - Chamava a minha mãe da cozinha - "Anda cá pois quero que leves esta canjinha à avó". Naquele tempo eu era tão novo que andava sempre contente. Ainda mais contente ficava quando sabia que tinha de ir à avó.
Eu adorava a minha avó. Sempre que me via, fazia-me uma festa, cobria-me de beijos e dava-me sempre alguma coisa. A minha avó adorava-me.
Lembro-me perfeitamente de que crescia pelo menos um milímetro de cada vez que estava com ela, nem que fosse só por um bocadinho.
Chamava-se Glória. Uma doença indecente, de que padecia desde há uns anos, impedia-a de mover-se. As coisas mais triviais tinham para ela um valor que só quem se encontra assim limitado sabe.
Atenta, a minha mãe, que sabia fazer comida como a minha avó gostava, costumava mandar-lhe uns miminhos consoladores.
Como de minha casa até à casa da minha avó eram uns escassos duzentos metros e a minha mãe sabia que indo eu era uma alegria acrescida que enviava, o transporte desses mimos ficava geralmente por minha conta.
E lá ia eu. Tentava retribuir a festa inevitável com que era recebido; Agradecia a oferta infalível; e lá vinha embora um pouco maior e mais feliz.
Ora, como sabem, as bruxas não apreciam nada que alguém feliz lhes passe à porta. Pois mais ou menos a meio do caminho, numa quelha escura e misteriosa, vivia uma bruxa. uma bruxa!
Viviam nessa altura aí umas seis bruxas na minha aldeia. Todas eram velhas, todas tinham sinais esquisitos na cara (regra geral perto do grande nariz, apesar de alguns serem na testa) e todas cheiravam ao mesmo: um odor que atraía ao mesmo tempo que enjoava. Acho que era das mistelas que elas preparavam mas podia bem ser de outra coisa qualquer, não sei.
A que vivia na quelha onde eu passava era a mais velha, a mais feia e a mais bruxa de todas elas. Era a chefe das bruxas de certeza absoluta (isto se é que as bruxas têm chefe, coisa que não posso assegurar).
Estou, contudo, em posição de revelar porque é que as bruxas não gostam que ninguém feliz lhes passe à porta: sempre que isso acontece quando elas estão a fazer uma poção (e geralmente é precisamente isso que elas estão a fazer) têm de repetir tudo, pois aquela fica estragada. Como sempre que eu lá passava, geralmente já de noite, pouco antes do jantar, ía sempre feliz levar miminhos à minha avó, é evidente que sem suspeitar de nada estraguei várias poções à tal bruxa. (Enquanto houvesse sol, nada disto interessava pois nesse caso a bruxa era apenas uma velha como outra qualquer).
Então ela, muito danada, resolveu assustar-me. Se eu ficasse com medo, pensava a bruxa, nunca mais lá passaria àquelas horas, feliz, a levar coisas boas à minha avó e, por conseguinte, nunca mais lhe estragaria as poções.
Lembro-me muito bem do dia, quero dizer, da noite, em que ela decidiu por em prática o seu malvado plano. Começou por fazer com que a rua estivesse deserta, coisa banal para uma bruxa, para que o meu medo fosse maior. Assim, nessa noite, nada me distraiu do ritmo sincopado com que caminhava e que era necessário manter certo para não entornar a canja transportada entre mãos.
Em segundo lugar, tornou aquela zona da rua completamente escura. Ali nunca havia muita luz mas naquela noite estava escuro como breu. A única coisa que se notava era que as sombras se iam mexendo como se estivessem vivas. Comecei a ouvir sons assustadores. Mau, mau. Tornou-se óbvio que tinha sarilhos pela frente. O assunto era sério e, perante tais circunstâncias, ocorriam-me três coisas que podia fazer; eram elas:
-desatar a correr com toda a força para a frente;
-desatar a correr com toda a força para trás;
-continuar, vencendo o medo, e levar a canja à minha avó.
As minhas preferências iam todinhas para a segunda opção da lista. Mas, tal como a primeira, essa escolha implicava, desgraçadamente, um grave senão: entornar a canja. A única forma de não entornar a canja era manter um passo certo, lento e ritmado, que eu já dominava bem. Ora, eu sabia o que é que aquela canja representava para a minha avó: por momentos ela sentia como se tivesse sido ela a fazê-la... Absolutamente inaceitável destruir aquele pedacinho de felicidade. As duas primeiras hipóteses estavam, por isso, postas de lado. Confesso que, a partir do momento em que os truques da bruxa se começaram a materializar, não pensava noutra coisa senão em desatar a correr, mas paciência. Tinha mesmo de continuar!
Semicerrei os olhos, acertei o ritmo, concentrei-me na expressão com que sabia iria ser recebido pela minha avó e avancei corajosamente.
Foi essa imagem imaginária, da cara de alegria com que a minha avó me receberia, a razão da minha vitória. Nem o enorme nariz, do tamanho de um cavalo, que entretanto começou a aparecer e desaparecer do fundo da quelha e cujos pelos horríveis quase me tocavam os braços, nem os barulhos horripilantes que vinham sabe-se lá de aonde, me detiveram ou conseguiram sequer fazer com que perdesse o ritmo certo dos meus passos. Ferida no seu orgulho, a bruxa ficou realmente furiosa ao ver gorados os seus intentos. Uma nuvem de um fedor estonteante e por fim um enorme clarão semelhante a um raio de trovoada, foram as suas ultimas jogadas. Nessa altura tive realmente medo mas continuei pois pensava que a minha avó merecia todos os sacrifícios, o que era, sem dúvida, verdadeiro.
Aquele pedaço de rua só tem alguns metros mas naquela noite pareceram-me muitos quilómetros e a minha avó até me perguntou porque vinha tão cansado... Contudo nessa altura eu já só estava orgulhoso e feliz.
Quando regressei a casa passei lá a correr tão depressa tão depressa que nem tive tempo de ter medo. E, para dizer a verdade, nunca mais tive medo de lá passar.
Nesse dia cresci um bocadinho mais do que o habitual.

Porto, 1996

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