sexta-feira, outubro 20, 2006

Abracadabra

Mote:
Ontem, para tirar uma dúzia de exaustos, mansos e românticos 'comunas' de um teatro, foram considerados necessários 100 (cem; C; one hundred) lanceiros.


Continuo pasmado de ver tantas pessoas aparentemente sábias, a defender a 'via do diálogo' ou o recurso à 'inteligência', para resolver os problemas que os terroristas e similares (coreias, médios-orientes...) nos colocam a todos.
Essas pessoas consideram, do alto da sua sapiência, sem deixarem margem para dúvidas, que a 'força bruta' é uma não-solução.

(Imagino essas pessoas a serem assaltadas (por um bando de canalha selvagem - porque se for por uma pessoa 'normal', claro que sim...) e a tentarem resolver o assunto por via do diálogo; imagino até essas pessoas a tentarem esclarecer um funcionário ignorante e decidido que se lhes impôe ou um polícia excessivamente diligente que os decide enfrentar, e surdo e cego para tudo o que não esteja no seu campo de visão... Não aconteceu já isto a todos?)

Leva-me a pensar que nunca nenhuma dessas pessoas criou um cachorro, educou uma criança, lidou com doentes mentais ou idosos; quer dizer: que já perderam a noção de certas realidades mundanas. Tal e qual.
Quem já tenha criado uma criança sabe, mas sabe mesmo, que há circunstâncias onde nem toda a bondade, carinho e simpatia do mundo, nem todo o Freud do mundo, nem todo o Piaget do mundo, funcionam. Há circunstâncias em que uma silenciosa imposição física encerra toda a eloquência do mundo. E não adianta descrever mais este fenômeno - tem de se viver para se aceitar esta triste mas indiscutível realidade.
(A Civilização entra na medida dessa imposição, claro.)

Ora, em relação, por exemplo, aos terroristas (e dizendo isto numa frase tão vulnerável perante o português como nós o somos perante o terrorismo) não só não é uma não-solução como é a única solução.
É a própria inteligência que nos deve fazer aceitar o que, por princípios,
rejeitamos (1).
E se é infeliz abdicar do diálogo, da cortesia, numa palavra: da Civilização, para resolver os problemas, é venturoso aceitar uma solução básica quando esta se revela melhor do que uma etérea solução ideal.

E não se trata de "abdicar"; trata-se de, primeiro, estabelecer as condições necessárias para a via civilizada possa funcionar. Essas condições só se conseguirão com um sereno mas categórico empurrão.

Como já disse numa entrada anterior: não se faz uma serra dar vinho com falinhas mansas; é necessário ferro e fogo; muito suor e constante atenção.

(1): Foi com frases destas - aliadas a sujas, hipócritas, abusivas e tendenciosas interpretações - que muitos sábios viram o seu trabalho atolado. (Marx e Nietzsche, por exemplo)
Não se perca de vista que, tal como as funções matemáticas, também as 'sentenças' têm um domínio de aplicabilidade que é necessário definir...

Sem comentários:

Enviar um comentário

Exprima-se livremente!